Muitas mulheres passam anos lutando contra um acúmulo desproporcional de gordura nas pernas, ouvindo que precisam apenas “fazer mais dieta” ou “se exercitar mais”. O que elas não sabem é que podem estar enfrentando uma condição médica real chamada lipedema, frequentemente confundida com obesidade ou falta de força de vontade.
O lipedema é uma doença crônica que afeta predominantemente as mulheres e se caracteriza pelo acúmulo anormal de gordura nos membros inferiores, acompanhado de dor, sensibilidade aumentada e hematomas frequentes. Apesar de afetar milhões de brasileiras, o lipedema ainda é pouco conhecido e subdiagnosticado, levando muitas pacientes a anos de sofrimento físico e emocional.
Nesta matéria, vamos esclarecer o que é o lipedema, quais são seus sintomas característicos, por que o diagnóstico correto é tão importante e quais tratamentos estão disponíveis para melhorar a qualidade de vida das pacientes.
O que é Lipedema?
O lipedema é uma doença crônica e progressiva do tecido adiposo que causa acúmulo desproporcional de gordura, principalmente nas pernas, coxas e quadris. Diferentemente da obesidade comum, essa gordura não responde a dietas ou exercícios físicos convencionais e possui características muito específicas.
A condição afeta quase exclusivamente mulheres, com estimativas indicando que entre 10% a 11% da população feminina pode ter algum grau de lipedema. Apesar disso, a doença é frequentemente mal diagnosticada ou simplesmente ignorada, sendo confundida com obesidade, retenção de líquidos ou falta de cuidado com o corpo.
O lipedema geralmente se manifesta ou piora em períodos de mudanças hormonais, como puberdade, gravidez ou menopausa, sugerindo uma forte influência hormonal no seu desenvolvimento. A doença tem também um importante componente genético, sendo comum encontrar múltiplos casos na mesma família.
Uma característica marcante do lipedema é que a gordura se acumula de forma simétrica nas duas pernas, formando uma silhueta característica onde os membros inferiores são desproporcionalmente maiores em relação ao tronco. Os pés e as mãos, curiosamente, não são afetados, criando uma demarcação clara entre a área acometida e não acometida.
Principais Sintomas do Lipedema
Reconhecer os sintomas do lipedema é fundamental para buscar o diagnóstico correto. Os sinais mais comuns incluem:
Acúmulo desproporcional de gordura: A gordura se concentra principalmente nas pernas, coxas, quadris e, às vezes, nos braços, criando uma desproporção evidente com o restante do corpo. Os tornozelos frequentemente apresentam uma aparência de “bracelete” ou “cuff”, onde termina o acúmulo anormal de gordura.
Dor e sensibilidade ao toque: Diferentemente da gordura comum, o tecido adiposo afetado pelo lipedema é doloroso à palpação. Muitas pacientes relatam sensação de peso, pressão e desconforto constante nas pernas, que piora ao longo do dia ou após períodos prolongados em pé.
Hematomas frequentes: A pele das áreas afetadas apresenta fragilidade capilar aumentada, fazendo com que pequenos traumas causem hematomas (manchas roxas) com facilidade. Muitas vezes, as pacientes nem se lembram do que causou os hematomas.
Textura nodular da pele: Ao toque, a pele pode apresentar uma textura irregular, com nódulos palpáveis sob a superfície. Em estágios mais avançados, a pele pode ter aparência de “casca de laranja” ou apresentar irregularidades visíveis.
Edema que não melhora com elevação das pernas: Embora possa haver inchaço associado, ele não desaparece completamente com repouso ou elevação dos membros, diferentemente do edema comum.
Sensação de pernas pesadas e cansadas: As pacientes frequentemente descrevem uma fadiga excessiva nas pernas, mesmo após atividades leves, além de sensação de peso constante.
Pés e mãos poupados: Uma característica distintiva é que os pés permanecem com tamanho normal, criando uma demarcação nítida entre a área afetada e não afetada, conhecida como “sinal do bracelete”.
Por Que o Diagnóstico Correto É Fundamental?
O diagnóstico correto do lipedema pode literalmente mudar a vida de uma paciente. Durante anos, muitas mulheres com lipedema são tratadas como se tivessem apenas obesidade, sendo submetidas a dietas restritivas e programas de exercícios intensos que, embora saudáveis, não resolvem o problema específico do lipedema.
Essa jornada de diagnósticos errados e tratamentos ineficazes gera um impacto psicológico devastador. As pacientes frequentemente enfrentam julgamentos sociais, sendo vistas como “preguiçosas” ou sem “força de vontade”, quando na verdade estão lidando com uma condição médica legítima que requer abordagem especializada.
Além disso, sem o tratamento adequado, o lipedema tende a progredir. A doença é classificada em estágios (I, II, III e IV), e quanto mais cedo for diagnosticada e tratada, melhores são os resultados em termos de controle da progressão e melhora da qualidade de vida.
Um diagnóstico correto também permite que a paciente acesse tratamentos apropriados, como fisioterapia especializada, drenagem linfática, uso de meias de compressão adequadas e, quando necessário, procedimentos cirúrgicos específicos para lipedema.
Lipedema não é falta de força de vontade. É uma doença crônica que merece diagnóstico preciso e tratamento especializado. O reconhecimento correto muda completamente a vida da paciente, permitindo que ela compreenda que não está sozinha e que existem tratamentos que podem ajudar a controlar os sintomas e melhorar sua qualidade de vida.” Dr. Antonio Carlos de Souza – CRM-DF 8057 | RQE 2690
Causas e Fatores de Risco
Embora a causa exata do lipedema ainda não seja completamente compreendida, diversos fatores estão associados ao desenvolvimento e progressão da doença:
Predisposição genética: O lipedema tem forte componente hereditário. Estudos mostram que muitas pacientes têm familiares de primeiro grau (mães, irmãs, tias) com a mesma condição, sugerindo uma base genética significativa.
Influência hormonal: A doença afeta quase exclusivamente mulheres e frequentemente se manifesta ou piora durante períodos de mudanças hormonais significativas, como puberdade, gravidez, pós-parto e menopausa. Isso sugere que os hormônios femininos, especialmente o estrogênio, desempenham papel importante no desenvolvimento do lipedema.
Alterações no sistema linfático: Pacientes com lipedema frequentemente apresentam comprometimento do sistema linfático, que é responsável pela drenagem de líquidos e proteínas dos tecidos. Essa disfunção pode contribuir para o acúmulo de líquido e piorar os sintomas.
É importante destacar que, embora o excesso de peso possa agravar os sintomas do lipedema, a condição não é causada por obesidade e pode afetar inclusive mulheres com peso considerado normal ou baixo.
Tratamentos Disponíveis para Lipedema
É fundamental esclarecer que o lipedema é uma condição crônica e não tem cura definitiva. No entanto, existe uma variedade de tratamentos que podem controlar os sintomas, melhorar significativamente a qualidade de vida e retardar a progressão da doença.
A abordagem terapêutica do lipedema é multidisciplinar e deve ser personalizada para cada paciente, levando em consideração o estágio da doença, os sintomas predominantes e as condições de saúde gerais.
Tratamento Conservador (Primeira Linha)
O tratamento conservador é sempre a primeira escolha e deve ser mantido mesmo quando outros tratamentos são adicionados:
Drenagem linfática manual: Técnica especializada de massagem que estimula o sistema linfático a drenar o excesso de líquido dos tecidos. Quando realizada por profissional treinado, pode reduzir significativamente o inchaço e a sensação de peso nas pernas. O ideal é realizar sessões regulares, de 2 a 3 vezes por semana.
Fisioterapia especializada: Fisioterapeutas com treinamento em terapia descongestiva complexa (TDC) podem oferecer tratamentos que combinam drenagem linfática, bandagens compressivas e exercícios específicos para melhorar a circulação e reduzir o volume das áreas afetadas.
Terapia de compressão: O uso de meias ou calças de compressão graduada é essencial no manejo do lipedema. A compressão ajuda a reduzir o edema, melhora a circulação venosa e linfática, e proporciona alívio da dor. As meias devem ser prescritas por especialista e adequadas à necessidade de cada paciente.
Exercícios de baixo impacto: Atividades físicas na água, como hidroginástica e natação, são particularmente benéficas, pois a pressão da água atua como compressão natural e facilita os movimentos sem sobrecarregar as articulações. Caminhadas leves, ciclismo e exercícios de alongamento também são recomendados.
Abordagem Nutricional
Embora o lipedema não seja causado por má alimentação e não desapareça com dieta, uma alimentação adequada é parte importante do tratamento:
Dieta anti-inflamatória: Alimentos ricos em ômega-3, frutas, vegetais e grãos integrais podem ajudar a reduzir a inflamação associada ao lipedema. Evitar alimentos ultraprocessados, excesso de açúcar e gorduras saturadas também é recomendado.
Controle de peso: Embora não elimine o lipedema, manter um peso saudável pode prevenir a sobrecarga adicional nas pernas e articulações, além de facilitar a movimentação e reduzir sintomas associados.
Hidratação adequada: Beber água suficiente é essencial para o bom funcionamento do sistema linfático.
Tratamento Medicamentoso
Embora não existam medicamentos específicos para tratar o lipedema, alguns podem ser utilizados para controlar sintomas:
Analgésicos e anti-inflamatórios: Para controle da dor, especialmente em períodos de maior desconforto.
Medicamentos para controle de edema: Em casos selecionados, podem ser prescritos medicamentos que auxiliam na redução do inchaço.
O uso de qualquer medicação deve sempre ser prescrito e acompanhado por médico especialista.
Tratamento Cirúrgico
Em casos mais avançados ou quando o tratamento conservador não proporciona alívio adequado, pode-se considerar a intervenção cirúrgica:
Lipoaspiração específica para lipedema: Diferente da lipoaspiração estética comum, a técnica para lipedema requer abordagem especializada, geralmente utilizando métodos mais delicados como lipoaspiração tumescente ou assistida por água (WAL). O objetivo é remover o tecido adiposo doente preservando o sistema linfático.
É importante destacar que a cirurgia não é cura e deve ser vista como parte de um tratamento contínuo que inclui as medidas conservadoras. Após o procedimento, o uso de compressão, drenagem linfática e cuidados com o estilo de vida devem ser mantidos para preservar os resultados.
A decisão sobre a cirurgia deve ser tomada em conjunto com uma equipe multidisciplinar, avaliando cuidadosamente os benefícios, riscos e expectativas realistas.
Lipedema x Obesidade x Linfedema: Entenda as Diferenças
Uma das maiores dificuldades no diagnóstico do lipedema é diferenciá-lo de outras condições que causam aumento de volume nas pernas. Veja as principais diferenças:
| Característica | Lipedema | Obesidade | Linfedema |
|---|---|---|---|
| Distribuição | Simétrica, pernas e braços, poupa pés | Todo o corpo, incluindo pés | Pode ser unilateral, afeta pés |
| Resposta à dieta | Não responde | Responde | Não responde |
| Dor | Sim, à palpação | Geralmente não | Sensação de peso, raramente dor |
| Hematomas | Muito frequentes | Ocasionais | Raros |
| Sinal de Stemmer | Negativo | Negativo | Positivo |
| Textura da pele | Nodular, irregular | Lisa | Fibrótica, espessa |
| Progressão | Gradual, estágios | Variável | Progressiva se não tratada |
O “sinal de Stemmer” é um teste simples: tenta-se beliscar a pele do segundo dedo do pé. Se não for possível fazer uma prega, o sinal é positivo, sugerindo linfedema.
É importante ressaltar que essas condições podem coexistir. Uma paciente pode ter lipedema e obesidade, ou lipedema que evolui para lipolinfedema (quando há comprometimento significativo do sistema linfático).
Convivendo com Lipedema: Dicas Práticas
Viver com lipedema exige adaptações e cuidados diários que podem fazer grande diferença no controle dos sintomas:
Cuidados diários com as pernas: Hidrate bem a pele das áreas afetadas, use cremes ou óleos adequados após o banho. Evite água muito quente, que pode piorar o inchaço.
Use compressão regularmente: As meias ou calças de compressão devem ser usadas diariamente, especialmente durante atividades que exigem ficar muito tempo em pé. Coloque-as pela manhã, ainda deitada, antes que o inchaço piore.
Exercícios recomendados: Priorize atividades aquáticas (natação, hidroginástica), que oferecem compressão natural da água. Caminhadas leves, yoga e pilates também são benéficos. Evite exercícios de alto impacto que sobrecarreguem as articulações.
Eleve as pernas: Sempre que possível, eleve as pernas acima do nível do coração por 15-20 minutos, várias vezes ao dia. Use travesseiros ou apoios adequados.
Roupas adequadas: Evite roupas muito apertadas que possam comprimir e piorar a circulação. Opte por tecidos confortáveis e elásticos.
Cuidado com a pele: Mantenha a pele limpa e seca para prevenir infecções. Qualquer ferida, mesmo pequena, deve ser tratada com atenção, pois a cicatrização pode ser mais lenta.
Suporte psicológico: O impacto emocional do lipedema não deve ser subestimado. Buscar apoio psicológico, participar de grupos de apoio e conectar-se com outras mulheres que vivem a mesma situação pode ser muito benéfico.
Mantenha acompanhamento regular: Consultas periódicas com angiologista e outros profissionais da equipe multidisciplinar são essenciais para monitorar a progressão e ajustar o tratamento conforme necessário.
Quando Procurar um Especialista?
Se você se identifica com os sintomas descritos, é fundamental procurar avaliação especializada com um angiologista ou cirurgião vascular. Alguns sinais específicos que indicam necessidade de consulta incluem:
- Acúmulo desproporcional de gordura nas pernas que não responde a dieta e exercícios
- Dor persistente nas pernas, especialmente ao toque
- Hematomas frequentes sem trauma significativo
- Sensação constante de peso e cansaço nas pernas
- Inchaço que piora ao longo do dia e não melhora completamente com repouso
- Textura irregular da pele nas pernas ou braços
- Histórico familiar de sintomas semelhantes
O que esperar da primeira consulta:
Durante a avaliação inicial, o especialista fará uma análise clínica detalhada, que inclui:
- Histórico médico completo, incluindo histórico familiar
- Exame físico das áreas afetadas
- Avaliação da textura da pele e distribuição da gordura
- Pode solicitar exames complementares, como ecodoppler venoso e linfático, para descartar outras condições e avaliar a função vascular e linfática
O diagnóstico do lipedema é essencialmente clínico, baseado na observação dos sintomas característicos e no exame físico realizado por profissional experiente.
Conclusão
O lipedema é uma condição médica real, crônica e progressiva que afeta milhões de mulheres no Brasil e no mundo. Não é resultado de preguiça, falta de disciplina ou má alimentação, mas sim uma doença que merece reconhecimento, diagnóstico correto e tratamento especializado.
Embora não exista cura definitiva, o lipedema pode ser controlado através de uma abordagem multidisciplinar que inclui tratamento conservador, mudanças no estilo de vida, acompanhamento nutricional e, quando necessário, intervenção cirúrgica. O mais importante é não sofrer em silêncio.
Se você suspeita que pode ter lipedema, procure um especialista em angiologia e cirurgia vascular para uma avaliação adequada. O diagnóstico correto é o primeiro passo para recuperar sua qualidade de vida e compreender que você não está sozinha nessa jornada.
Na Clínica Angiomedi, oferecemos atendimento especializado com equipe experiente, abordagem humanizada e tecnologia de ponta para diagnóstico e acompanhamento de pacientes com lipedema.
Sobre o Autor
Dr. Antonio Carlos de Souza
CRM-DF 8057 | RQE 2690 – Angiologia e Cirurgia Vascular
Dr. Antonio Carlos de Souza é especialista em Angiologia e Cirurgia Vascular, com mais de 20 anos de experiência no diagnóstico e tratamento de doenças vasculares. Cofundador da Clínica Angiomedi, inaugurada em 2003, dedica-se ao atendimento humanizado de pacientes com lipedema, oferecendo abordagem multidisciplinar e tratamentos conservadores baseados em evidências científicas.
Graduado em Medicina pela Universidade de Brasília (1992), realizou Residência Médica em Cirurgia Geral e Cirurgia Vascular pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP-RP. É Especialista em Cirurgia Vascular Periférica e Angiologia pela SBACV e pelo Conselho Federal de Medicina, além de membro da ISES (International Society of Endovascular Specialists) e da Sociedade Brasileira de Laser em Medicina e Cirurgia.
Estas informações têm caráter educativo e não substituem uma consulta médica. Para diagnóstico e tratamento adequados, procure orientação de um profissional qualificado.
Sobre a Clínica Angiomedi
A Clínica Angiomedi foi inaugurada em 2003 com o objetivo de tornar-se um centro médico altamente especializado em saúde vascular, voltado para a prevenção, diagnóstico e tratamento dos transtornos circulatórios.
Com mais de 20 anos de tradição em Brasília, a clínica oferece atendimento humanizado e personalizado, aliando tecnologia de ponta à experiência de uma equipe de 4 especialistas qualificados em angiologia e cirurgia vascular.
Nossa missão: Contribuir com a melhoria da saúde vascular com humanização e responsabilidade, oferecendo serviços e cuidados com inovação, personalização e qualidade, buscando a satisfação de clientes e colaboradores e respeitando a comunidade e o meio ambiente.
Fontes e Referências
- Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV)
- International Lipoedema Society
- Wold LE, Hines EA Jr, Allen EV. Lipedema of the legs: a syndrome characterized by fat legs and orthostatic edema. Ann Intern Med. 1951;34(5):1243-50.
- Herbst KL. Rare adipose disorders (RADs) masquerading as obesity. Acta Pharmacol Sin. 2012;33(2):155-72.
- Child AH, et al. Lipedema: an inherited condition. Am J Med Genet A. 2010;152A(4):970-6.
- Revista Brasileira de Cirurgia Vascular – Artigos sobre Lipedema
- Conselho Federal de Medicina – Diretrizes sobre Doenças Vasculares
- Angiomedi – Centro Especializado em Saúde Vascular (angiomedi.com.br)
(RT: Dr. Antonio Carlos de Souza | CRM-DF 8057; RQE 2690)




